da terra

do folclore, das lendas, das histórias, dos trajes e das gentes da terra

O cego fingido

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- Donde vens, ó Ana?

- Eu venho da missa.

- Retira-te, ó Ana,

Que lá vem justiça.

- Se lá vem justiça

Deixai-me ir embora

Que a minha portinha

Não se abre agora.

Qual é o vadio

Que a esta hora anda

Que eu estou em faxinhas

Para me ir à cama

- Se estás em faixinhas,

Eu assim te quero;

Se hás-de ser minha

Eu por ti espero.

- Acorde minha mãe,

Do doce dormir;

Venha ver o cego

Tocar e pedir.

- Se toca e pede,

Dá-lhe pão e vinho,

Para que o cego

Siga o seu caminho.

- Nem quero o seu pão,

Nem quero o seu vinho;

Queria que a menina me ensine o caminho.

- Ora vai, filha, vai,

Leva roca e linho

E ensina o caminho

ao triste ceguinho.

- Espere lá, ó cego,

Que eu estou-me vestindo

Minha saia roxa,

Meu gibão de linho.

Espiou-se-me a roca, Acabou-se-me o linho;

Adiante, cego,

Lá vai o caminho.

Lá mais adiante

Está um verde pinho.

Ora venha menina

Mais um bocadinho,

E ensine o caminho

Ao triste ceguinho.

- Valha-me Deus

É a virgem Maria,

Que vejo tanta gente

De cavalaria

Nunca eu vi cego

Com tal fantasia;

Sua espada d’ouro

À cinta trazia

De condes e duques

Era pretendida;

Agora dum cego

Me vejo perdida.

Ascuite, menina,

Não teu há agonia

Que eu sou o mesmo conde

Que a pretendia.

Adeus minhas casas,

Adeus minhas terras,

Adeus minha mãe,

Que tão falsa me eras.

Estando à minha janela,

Dei volta para a Ferraria;

Passou um certo sujeito

Olhou mais do que olharia.

Se ele tornar a olhar

Alguma lhe hei-de dizer

Que não vá dizer o mundo

Que isto é por bem querer.

- “Se isto é por bem querer,

Não importa que o diga;

Se eu olho para cima,

O seu amor me obriga.”

- “Não sei que o obrigue.

Nem que o possa obrigar,

Estando à minha janela,

Tão sisuda sem falar.”

- “Essa sisudez

Ainda é o que mais m’obriga,

Que é o melhor dos modos

Que tem uma rapariga.”

- “Ó meu pai e minha mãe,

Uma lhes quero dizer;

Falaram-me em casamento,

Sem vocemecês saber.”

- “Qual foi o cavalheiro,

Que a tal se atreveu;

Falar nesse casamento

Sem saber se quero eu!”

- “Vá-se meu pai informar

E venha bem informado,

Que, se ele é de seu gosto,

É muito do meu agrado.”

- “Não tenho que te dizer,

Nem tão pouco que m’informar.

Era um maroto, um brejeiro,

Que te queria enganar.”

- “Vá-se lá, sei cavaleiro,

Case lá com quem quiser,

Que não é meu pai contente,

Que eu seja sua mulher.”

“Dá-me cá aquela faca

Que me quero matar”

- “Se ele morre por mim,

Por ele quero morrer;

Adeus, meu pai e minha mãe,

Que os não torno a ver.”

(Celorico de Basto)

Coelho, Adolfo. Festas, Costumes e outros materiais para uma Etnologia de Portugal, Vol.I, Lisboa, Publicações D. Quixote, 1993

PS: Também deste romance se pode ouvir uma versão dos Gaiteiros de Lisboa no álbum “Novas vos trago”, entitulada “O Falso Cego”.

Escrito por madameclock

Janeiro 2, 2008 às 6:18 pm

Publicado em etnografia, minho, romances

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