Donzela que vai à guerra
- Dai-me armas e cavalo,
Que eu serei filha varão.
- Tende-los olhos mui lindos
Filha, conhecer-vos-ão.
-Quando passar por a gente
Botarci-os para o chão.
- Tendes os ombros mui altos,
Filha, conhecer-vos-ão.
- Dai-me armas bem, pesadas
Que eles descerão.
- Tende-las mãos muito lindas
Filha, conhecer-vos-ão.
- Metê-as-ei numas luvas,
Nunca delas sairão.
- Tende-lo pé pequenino,
Filha, conhecer-vos-ão
- Meterei-os numas botas
Nunca delas sairão.
- Ó minha mãe, que eu morro.
Abafo do coração
Que os olhos de D.Cales,
São de mulher, de homem não,
- Convida-o meu filho, convida-o,
Para contigo passear,
Que se ela mulher for
Às flores se há-de atentar.
- Forte flor para uma dama,
Quem lha fora lá levar.
Forte cidrão é este
Para um homem cheirar.
- Ó minha mãe, eu morro,
Abafo do coração
Que os olhos de D.Cales
São de mulher, de homem não.
- Convida-o meu filho, convida-o,
Para contigo passear,
Que se ela mulher for
Às fitas de há-de atentar.
- Forte fita para uma dama
Quem lha fosse lá levar;
Fortes alças e chapéus
Para um homem comprar.
- Ó minha mãe, eu morro,
Abafo do coração
Que os olhos de D.Cales
São de mulher, de homem não.
- Convida-o meu filho, convida-o,
Para comigo nadar ,
Que se ela for mulher,
Mil escusas te há-de dar.
- Adeus, que me vou embora,
Adeus meu conde e senhor;
Há dois anos que o serve
Esta Dona Leonor
(Celorico de Basto)
Coelho, Adolfo. Festas, Costumes e outros materiais para uma Etnologia de Portugal, Vol.I, Lisboa, Publicações D. Quixote, 1993
PS: Podemos escutar uma adaptação deste romance pela voz de Amélia Muge na música “Donzela Guerreira” inserida no álbum “Novas vos trago”, Vários Artistas.